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Tratamento silencioso: como se relacionar quando o silêncio é a comunicação

Comunicação interpessoal

O tratamento silencioso ocorre quando uma pessoa para de falar com você ou se afasta em meio a um conflito ou sem um motivo aparente. O silêncio é uma forma passiva-agressiva de comunicar que algo está errado sem dizer o quê. Saiba como agir diante dessa situação.

Há alguns meses me hospedei em um hostel para participar de um evento. Tarde da noite, ao sair do meu compromisso, comprei uns sanduíches prontos no supermercado para "jantar". Cheguei no hostel e fui comer no terraço. Lá estava um rapaz, filho de mãe brasileira e pai suíço, que logo veio sentar perto de mim e puxar conversa.

Em determinado momento começamos a falar sobre a relação com a sua família. Entre uma história e outra, o rapaz revelou que não estava conversando com o irmão. Perguntei o porquê. Ele explicou a situação e, em seguida questionei se havia conversado abertamente sobre o motivo do corte na comunicação. Ele apenas disse que o irmão sabia a razão do seu afastamento.

Questionei se ele já havia refletido que um evento é experienciado de forma muito singular por cada pessoa. Que talvez o irmão não tivesse tanta clareza sobre o motivo de ele ter ficado magoado. Ou embora suspeitasse, não soubesse como isso o afetou ou como poderia remediar a situação.

Enfatizei que por mais desconfortável que seja, conversar de forma franca com quem faz parte do problema é sempre a melhor alternativa para resolver um conflito.

Diante disso, com um sorriso "malicioso", o rapaz disse que era bom "dar um gelo" no irmão para "ele aprender". Fim da história.

Lembrei desse relato ao receber essa resposta à uma pergunta que fiz no stories do @pessoamelhorEu fiz o seguinte questionamento: Você já "perdeu" alguma relação por causa de problemas de comunicação? Caso sim, qual foi o problema/dificuldade?

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Esse tipo de comportamento: cortar a comunicação ou afastar-se em meio a um conflito ou sem um motivo aparente é mais comum do que gostaríamos, e pode ser a expressão do chamado "silent treatment" ou tratamento silencioso.

O que é o tratamento silencioso?

O tratamento silencioso é uma forma de abuso emocional passiva-agressiva baseada na atitude de recusar a comunicação quando alguém a deseja/inicia. Ocorre quando uma pessoa tenta se comunicar com outra face a face, via mensagem, carta, email, telefone, sinal de fumaça rs, sem resposta. A pessoa que recebe a comunicação decidi não retornar. Pode ocorrer nas nossas relações de trabalho, de amizade, familiares e a dois. Ou seja, em qualquer relacionamento.

De alguma maneira, a pessoa que se nega a comunicar sente-se ferida. Por ter dificuldade de processar os sentimentos e expressá-los, fecha-se em si mesma completamente.

Ainda que de forma inconsciente, quem adota o tratamento silencioso acredita que é vítima do outro. Que o outro é a razão das suas emoções e sentimentos difíceis. O corte de comunicação e o distanciamento é uma forma de autodefesa.

O tratamento silencioso pode ser adotado de forma intencional ou não

Não é intencional quando baseia-se apenas na dificuldade de a pessoa se expressar emocionalmente. Para justificar o seu comportamento, a pessoa pode dizer a si mesma que: "nem vale a pena tentar conversar" ou "melhor não me desgastar com isso". Uma desculpa que camufla a dificuldade de lidar com a situação de forma assertiva.

É intencional quando utilizado como forma de punição psicológica, com o objetivo de manipular o outro: gerar nele uma reação desejada.

De forma intencional, o tratamento silencioso é utilizado especialmente por pessoas com tendência e transtorno de personalidade narcisista. Adotam esse comportamento para manipular o outro. Fazer com que ele atenda às suas necessidades, pois do contrário serão punidos. Punidos com o silêncio.

Identificamos que o tratamento silencioso é intencional quando...

  • Ocorre com frequência e dura longos períodos de tempo.
  • É utilizado como uma ferramenta de punição. É adotado com o objetivo de causar uma reação emocional no outro: fazer você se sentir mal, culpado, de colocá-lo no seu lugar.
  • Só termina quando você pede desculpas ou cede às demandas da pessoa.
  • Você muda o seu comportamento para evitar o tratamento silencioso.

De modo intencional ou não, o tratamento silencioso é uma forma de abuso emocional e pode causar graves danos à saúde mental e emocional de quem o recebe. Especialmente se a pessoa não é emocionalmente inteligente ou está fragilizada.

Tratamento silencioso x Tempo para reflexão

É importante destacar que o tratamento silencioso é diferente da necessidade de um tempo para reflexão.

Diante de um conflito, uma pessoa pode sentir a necessidade de tempo para acalmar-se e refletir sobre a questão e a relação. Às vezes precisamos deixar as ideias assentarem. Isso é saudável.

Nesse caso, a pessoa comunica claramente: "preciso de um tempo para pensar sobre isso, depois conversamos". O silêncio não é utilizado como ferramenta de punição ou manipulação. Nem como uma maneira de expressar a sua dificuldade de comunicar.

O que não fazer diante do tratamento silencioso

Quando há o convívio é mais fácil identificar se o tratamento silencioso é uma resposta emocional padrão de determinada pessoa, e a razão da sua utilização: para controle e manipulação, ou apenas representa a dificuldade de o outro se expressar.

Indiferentemente do caso, diante do tratamento silencioso é natural nos tornamos emocionais e adotar atitudes que mais prejudicam do que contribuem para resolver o conflito e fazer a pessoa sair do limbo do silêncio.

  • Queremos "tirar satisfação". Com isso respondemos com raiva, o que pode apenas escalar o conflito.
  • Imploramos pela atenção do outro, o que encoraja o comportamento passivo-agressivo de quem utiliza o silêncio como ferramenta de punição e manipulação.
  • Pedimos desculpas apenas para acabar com o conflito, mesmo sem ter cometido um erro.
  • Continuamos à argumentar com a outra pessoa depois de ter tentado diversas vezes.
  • Personalizamos o problema, assumimos a culpa pelo silêncio do outro. "Se fulano não quer falar comigo é porque fiz algo errado".
  • Ameaçamos terminar o relacionamento etc.

É muito arriscado adotar esse tipo de resposta emocional com pessoas com tendência narcisista ou transtorno de personalidade narcisista, pois elas não se conectam conosco emocionalmente.

Ou seja, não entram em empatia e nem admitem seus erros ou falhas. Interpretam a nossa expressão emocional como fraqueza, admissão da responsabilidade pelos erros que eles cometem e como símbolo de que têm controle sobre nós.

Adotar qualquer uma as respostas emocionais citadas apenas cria a reação que gostariam de receber. Com isso, continuarão a utilizar o silêncio como forma de punição e manipulação.

Já no caso das pessoas que utilizam o tratamento silencioso de forma não intencional, uma abordagem mais emocionada pode escalar o conflito. Imagine alguém imerso em sofrimento escutando uma fala super emocionada? Ele "escutará" através dos filtros do seu sofrimento. Melhor, não escutará.

O que fazer, Aline? Deixo a pessoa em silêncio, se afastar? Não tento reestabelecer a comunicação?

Na realidade, diante do tratamento silencioso o nosso papel não é reestabelecer a comunicação porque no caso não cortamos a comunicação com o outro. Concorda?

Logo, o nosso papel é deixar claro que somos receptivos à comunicação. Assim, ao invés de abordá-lo de forma emocional, devemos ser mais objetivos e dizer:

"Percebo que algo não está bem. Sinto muito se fiz ou falei algo que soou ofensivo para você. Quando estiver pronto/a para conversar, eu também estarei. Assim, juntos, com mais clareza sobre os fatos, podemos encontrar uma solução para o que gerou essa situação".

Eu sei, está mega formal, mas você entendeu qual é o propósito aqui. É só adaptar para o seu "jeito de falar".

Dito isso, retire-se da situação. Sério. Não insista perguntando o que está acontecendo ou "adulando" quem está em silêncio. Insistir e "adular" são maneiras de reforçar o comportamento.

Quando a pessoa sentir-se pronta para se expressar, podemos utilizar os passos da comunicação não-violenta (observar sem avaliar, expressar sentimentos, necessidades e fazer um pedido) para ajudá-la à comunicar suas emoções, sentimentos e necessidades.

Mas antes disso, se ela não assume a responsabilidade por se comunicar, o nosso papel é apenas demonstrar que estamos receptivos à sua comunicação. Anota aí.

O silêncio vale ouro, mas é improvável que o silêncio faça as coisas caminharem quando há um conflito. Dale Carnegie

O que fazer quando a pessoa reestabelecer a comunicação?

Quando a pessoa decidir comunicar-se, não espere por desculpas e justificativas sobre o seu comportamento. Não estamos procurando culpados, nem vencedores. Fazer ou esperar que o outro desculpe-se e explique-se é apenas uma maneira de colocá-lo na defensiva e de validar o nosso ego.

Com esse pensamento em mente, assim que o outro retornar você pode adotar o seguinte processo:

Parte 1: Não se justifique ou comece a inferir os motivos de ela ter utilizado o tratamento silencioso. Diga sinto muito para demonstrar que se importa com a pessoa e como ela se sente diante dessa situação.

"Pessoa, eu fico feliz que você voltou a se comunicar comigo. Sinto muito se alguma atitude ou fala minha serviu de gatilho para você adotar o silêncio como seu único recurso.

Parte 2: Esclareça a necessidade de cultivar uma comunicação transparente e que é receptivo à necessidade de espaço do outro.

Desejo que esteja confortável para expressar-se comigo, porque assim vamos conseguir cada vez mais melhorar a nossa relação. Se estiver experienciando alguma emoção difícil e precisar interromper a comunicação para processar isso, me avise. Vou respeitar o seu tempo.

Parte 3: Sugira formas alternativas de comunicação caso surja um novo conflito no futuro e faça um acordo.

Se for o caso, me alerte sobre o que faço que te coloca na posição de utilizar o silêncio. Assim eu sou capaz de fazer algum ajuste para manter a fluidez da nossa comunicação e relação. Ou seja,eu posso avaliar e ajustar o meu comportamento se você me disser claramente o que e como te afeta*. Combinado?"*

Importante: o tratamento silencioso não tem NADA a ver com quem o recebe

Por mais que alguma fala ou atitude soe ofensiva para o outro, e vice-versa, isso não justifica a utilização do tratamento silencioso. Pessoas emocionalmente maduras são capazes de conversarem sobre as suas necessidades, interesses, contrapontos, de pedir tempo e espaço - se for o caso etc.

Por isso, é fundamental despersonalizar o tratamento silencioso. Ele não tem nada a ver com quem o recebe e está disposto a se comunicar de forma saudável. Inclusive em debater pontos divergentes e chegar à conclusão de que a melhor alternativa é concordar em discordar ou, até mesmo, romper a relação.

Sim, podemos juntos conversar e identificar que a melhor alternativa é romper um relacionamento. Conversando sobre isso, esclarecemos as razões do rompimento e ficamos "bem resolvidos com a decisão mútua". Sem conversa, há sempre uma ferida aberta.

Por isso, no caso de receber o tratamento silencioso, desconsidere pensamentos do tipo:

"Eu não sou digno de atenção..."

"Por que ele/a não quer conversar sobre isso?"

"O que fiz de errado?"

"Como ele/a pode fazer isso comigo?"

Fazer esse tipo de reflexão e questionamento diante do silêncio do outro é natural. Nossa mente não curte informações incompletas. Mas dedicar atenção e energia à esse tipo de pensamento é desperdício de vida. Ao menor sinal, reconheça o pensamento e deixe ele partir.

Mude a forma como você interpreta o silêncio do outro

A nossa dificuldade de lidar com o silêncio do outro surge da maneira como o interpretamos. Quando alguém corta a comunicação conosco ou afasta-se sem motivo aparente, acreditamos que estamos sendo rejeitados, ignorados, excluídos... O silêncio dele se torna sobre a gente.

Assim, deixamos de enxergar a realidade sobre o tratamento silencioso. Ele é uma estratégia que o outro utiliza para atender as suas necessidades e desafios: controle ou dificuldade de expressar-se. Rejeitar, ignorar, excluir é a nossa forma de interpretar isso.

Escolha não ser atingido e você não se sentirá atingido. Não se sinta atingido e você não terá sido. Marco Aurélio

Eu sei, mesmo sabendo que o tratamento silencioso fala mais sobre o outro do que sobre algo que "fizemos errado", é desconfortável recebê-lo. Especialmente quando ocorre com pessoas queridas, com as quais nos importamos.

Ao abandonarem a relação sem uma justificativa ou se fecharem em meio uma conversa importante transmitem a impressão de que a nossa conexão não importa para elas.

Mas antes de apegar-se à esse tipo de pensamento, é mais saudável praticarmos a empatia. Identificar que eles provavelmente estão em sofrimento. Seja a pessoa com tendência ou transtorno de personalidade narcisista, ou apenas que tem dificuldade de expressar-se emocionalmente não é feliz ao adotar esse tipo de comportamento.

Empatizar e reconhecer a dificuldade do outro nos ajuda a desapegar dos pensamentos que justificam e fortalecem emoções negativas em nós, e que poderiam nos colocar na defensiva.

Assim, deixamos de nos sentirmos incomodamos com o silêncio do outro. Escolhemos não ser atingidos. Estamos dispostos à escutá-lo, caso queira se comunicar. Mas não dependemos disso para nos sentirmos em paz conosco.

Na realidade, nunca dependemos do contexto externo para estar em paz conosco. Cultivar paz interior depende apenas de nós.

Quando você estiver pronto eu estarei pronto para conversar

Empatizar não significa aceitar. O tratamento silencioso deve ser firmemente "combatido" em nossos relacionamentos. Do contrário, diante de qualquer pequeno desencontro teremos que lidar com o drama do silêncio e constantemente nos esticarmos para tentar acessar o outro.

No longo prazo, a pessoa que sempre tem que ceder, ir atrás, iniciar a conversa, assumir erros que não cometeu, diminui seu senso de amor-próprio, perde o respeito dos outros e prejudica a sua autoestima.

Além disso, é muito desgastante cultivar um relacionamento de qualidade nessas condições. Pois os problemas não são resolvidos, apenas suprimidos. E, por isso, na primeira oportunidade voltam à superfície. É uma montanha russa emocional.

Se queremos construir melhores relacionamentos é fundamental demonstrar para as pessoas com as quais convivemos que o tratamento silencioso é uma forma de abuso emocional, que não é tolerada. A melhor maneira de ter nossos interesses e necessidades atendidos é por meio da comunicação.

Se não existe comunicação, não há relação.

Tanto no caso do irmão do rapaz suíço, quanto da pessoa em que o amigo se afastou sem explicar, a melhor atitude é dizer: parece que algo não está bem, quando você estiver pronto eu estarei pronto para conversar. Esclareça que está aberto à comunicação e deixe que o outro faça o movimento seguinte. Sem expectativas.

Faça a sua parte e siga.

Beijo!

Aline :)


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