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Por que somos difíceis de conviver?

Relacionamentos

A inabilidade de lidarmos uns com os outros, com as nossas singularidades, prejudica relações próximas, a produtividade no trabalho e a realização de um debate político e social construtivo. Afinal, o que torna as nossas relações tão difíceis? Como nos tornar mais fáceis de conviver?

Todos enfrentamos problemas de relacionamento. Inúmeras situações de desencontro e desconexão entre familiares, no trabalho, na relação a dois, em debates na internet ou com estranhos na rua. A convivência é um desafio real tanto para mim quanto para você, não tenha dúvida.

Embora sejam múltiplos os desafios na interação com o outro, eles parecem emergir de lugares comuns. Um olhar mais atento para as entrelinhas dos relatos de problemas de relacionamento, ajuda a gerar mais clareza sobre por que eu e você vivenciamos tantos desencontros e desconexões.

A escuta de desabafos e a realização de observações empíricas no meu dia a dia, me permitiram levantar uma hipótese sobre o que dificulta os nossos relacionamentos. Hipótese que tem encontrado morada nos resultados das pesquisas online que realizei sobre o tema.

Para descobrir por que somos difíceis de conviver é preciso escutar as pessoas

Há alguns meses criei uma pesquisa online com a seguinte pergunta: quais os principais desafios/problemas/conflitos enfrentados nas suas relações interpessoais (em casa com a família, no relacionamento amoroso, com os amigos e no trabalho)?, e compartilhei o formulário nas minhas redes sociais. Recebi respostas como:

“[…] sinto falta de ser mais amável ou, na verdade, de demonstrar esse sentimento. Acho que não sei demonstrar o meu carinho para a minha família e amigos.”

“[…] dizer não para algumas pessoas ou situações.”

“[…] transmito uma mensagem que não é bem compreendida […] Fica um mal entendido na relação …”

"Entendimento dos desejos e motivações, o que faz elas [as pessoas] serem o que são”

“[…] a polarização de ideias radicais..."

“Ser mal interpretado …”

"Insegurança, orgulho, desconfiança.”

“[…] expressar de forma sincera e não ofensiva pontos a serem esclarecidos, como algo incômodo ou não resolvido de maneira correta.”

"A falta de capacidade que as pessoas têm de se colocar no lugar do outro."

"Confiança, segurança, me abrir verdadeiramente, não ter medo.”

"Em casa, seria superar as diferenças culturais (lá, todo mundo é concursado, eu não pretendo seguir esse rumo) …”

“Com amigos, seria manter contato, saídas, manutenção do relacionamento…”

"No amor, seria ter alguém que não queira competir comigo profissionalmente..."

Rolou alguma identificação com as respostas compartilhadas acima? Caso não, calma que tem mais uma oportunidade.

Outro dia perguntei exatamente: "Por que somos difíceis de conviver?", no stories e no feed do @pessoamelhor. Por lá recebi mais alguns apontamentos:

“Porque somos criados em meios diferentes e esperamos atitudes como as nossas do outro.”

“Porque comparamos muito a nossa vida com a do outro.”

“Penso que cada um tem uma forma de sentir e dar valor aos acontecimentos.”

“Porque somos de classes sociais diferentes. Porque fazemos pressuposições sobre as pessoas e agimos a partir disso, sem verificar se estávamos certos.”

“Porque somos individualistas demais.”

“Porque somos muitas vezes incapazes de ter uma real empatia com o outro.”

“Porque as pessoas são egoístas e orgulhosas :(“

“Porque falta empatia e comunicação.”

“Porque não sabemos ouvir.”

“A dificuldade que as pessoas tem de serem sinceras e com isso construir relações melhores! Parece que virou moda você ser escroto.”

“Acredito eu que seja pela nossa resistência em ceder. Dificilmente abrimos mão de algo/ponto.”

“Porque somos arrogantes por sempre querermos estar certos, deixando o ego ser um valor medíocre.”

“Porque ainda não sabemos lidar com nossos defeitos e muito menos ter empatia com os dos outros.”

E agora, concorda ou se identifica com alguma resposta?

Estamos desconectados da nossa singularidade e da singularidade do outro

As respostas acima revelam o reconhecimento de que nascemos e fomos criados em contextos distintos; que enxergamos o mundo de modo diferente; que somos autocentrados; que temos dificuldade de adotar a perspectiva do outro, e que boa parte da desconexão e desencontros surgem daí: da singularidade de cada indivíduo.

Contudo, apesar de reconhecermos a nossa singularidade parece haver certa dificuldade em acolhê-la. Acolher tanto a nossa singularidade quanto a do outro. Pois “se comparamos muito a nossa vida” com a de outras pessoas é sinal de que não valorizamos realmente a nossa história. Da mesma forma, se tenho dificuldade de empatizar com o outro é porque não acolho a história dele.

Se apenas reconhecemos, mas não acolhemos a nossa singularidade e a do outro, dificilmente conseguiremos fazê-las dialogarem. Quando acolhemos as nossas singularidades criamos espaço para a empatia.

Dentro da perspectiva de Roman Krznaric, a empatia pode ocorrer de forma cognitiva e emocional. Empatia cognitiva baseia-se na adoção da perspectiva do outro. Envolve compreender as razões por trás do comportamento das pessoas com as quais nos relacionamos. É "a realização de um salto imaginativo e o reconhecimento de que outras pessoas têm gostos, experiências e visões de mundo diferentes dos nossos.”

Já a empatia afetiva consiste em uma resposta emocional compartilhada. Ou seja, quando vemos alguém chorar de forma angustiada e sentimos a sua angústia. Talvez a gente não sinta a angústia? Talvez. Mas empatia real só rola se, no mínimo, reconhecermos e validarmos as emoções e sentimentos vivenciados pelo outro.

É ao deixarmos de nos perceber e de perceber o outro, de apreciar e respeitar a nossa singularidade, que colidimos. Por isso a minha hipótese é que somos difíceis de conviver por conta dessa desconexão. Porque estamos desconectados da nossa singularidade e da singularidade do outro.

A falta de apreciação e respeito dessa singularidade torna mais difícil nos comunicarmos, empatizar, lidar com as nossas emoções e com as das outras pessoas, e negociar diferenças. Pois negligenciamos o jeito de cada pessoa comunicar e sentir. Negligenciamos as nossas histórias e perspectivas.

Um terreno fértil para a polarização de ideias, para a competição profissional em um relacionamento amoroso, para a dificuldade de lidar com pontos de vista e bagagem cultural distintos, para o desafio de nos expressarmos emocionalmente e lidar com a expressão emocional do outro; para gerenciar emoções difíceis, e não nos deixarmos ser guiados pelo orgulho, por exemplo. Alguns dos problemas abordados nas respostas.

Do que estamos falando quando desabafamos sobre os nossos problemas de relacionamento?

Problemas de relacionamento revelam o cerne da questão, o que nos torna difíceis de conviver: a inabilidade de empatizar, comunicar, lidar com emoções e sentimentos, negociar as nossas diferenças, além de lançar luz sobre as nossas feridas emocionais. Um tema que abordarei em outro conteúdo.

Diante disso, para desenvolvermos competências que podem aumentar a qualidade das nossas relações, primeiro é fundamental acolhermos a nossa singularidade e a singularidade do outro.

O ato de acolher tais singularidades nos torna mais aptos para: a) treinar a escuta e a fala que conecta, inclusive durante conversas difíceis. Em geral negligenciamos o jeito de ser do outro quando comunicamos e escutamos mais nossos ruídos internos (ponto de vista, pensamentos, emoções e sentimentos) do que de quem se expressa; b) também estamos mais dispostos a nos conectarmos à nossa forma de sentir o mundo e considerar a das pessoas ao nosso redor, e aprender a lidar com emoções e sentimentos, bem como comunicá-los de forma assertiva (nem passiva, nem agressiva); c) e resolver conflitos dentro de uma perspectiva ganha-ganha, com base na persuasão e na negociação.

A inabilidade de lidarmos uns com os outros, com as nossas singularidades, prejudica relações próximas, a produtividade no trabalho e a realização de um debate político e social construtivo. Por isso é urgente acolher as nossas singularidades e, com isso, criar espaço para desenvolvermos competências de comunicação, nos educarmos emocionalmente e aprender a negociar as nossas diferenças.

Quando acolhermos as nossas singularidades e as dos outros, e desenvolvemos competências para lidar com elas, nos tornamos mais fáceis de conviver. Concorda?

Beijo :) 

Aline


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