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Já se sentiu desconectado? Talvez isso seja solidão

Educação Emocional

O sentimento de solidão não está restrito a idosos em casas de repouso. Ao contrário, pode estar presente na vida de pessoas muitíssimo ocupadas e com uma extensa rede de contatos. Pois solidão tem a ver com desconexão. Podemos interagir com diversas pessoas e não nos sentirmos genuinamente conectados a nenhuma delas. Já se sentiu assim?

Engana-se quem acha que solidão faz parte da vida de pessoas que têm uma vida social pouco agitada ou de idosos em casas de repouso. Nosso amigo que está em todos os eventos badalados da cidade e que tem um mundão de contatos na agenda e nas redes sociais, pode sentir-se mais solitário do que a pessoa que não sai muito de casa e  conta com uma modesta rede.

O que é solidão?

Isso ocorre porque solidão tem a ver com o sentimento de desconexão. Embora uma pessoa interaja com várias outras, é possível que não crie conexão genuína com nenhuma delas. E, isso sim, pode caracterizar alguém como solitário. Ao contrário de quem tem poucos contatos, mas sente que pode contar com eles.  Inclusive, na pesquisa BBC Loneliness Experiment, a maioria dos participantes indicou que o oposto de solidão é estar ou sentir-se conectado.

A sociedade está cada vez mais digitalmente conectada, o que facilita o aumento da nossa rede; mas isso não quer dizer que estamos genuinamente conectados. A tecnologia facilita a comunicação, não necessariamente a criação de vínculos significativos. Esses requerem um esforço consciente que pode ou não ocorrer tanto online quanto offline.

Sem um trabalho 'real oficial' para cultivar relacionamentos de qualidade, o sentimento de solidão pode se mostrar presente nos diversos grupos sociais dos quais fazemos parte. Seja em casa, entre amigos ou no trabalho, podemos nos sentir muito solitários. Ou para você ficar mais confortável em reconhecer isso, substitua solitários por desconectados.

Apesar de um sentimento compartilhado, a realidade é que falar de solidão é tão complicado como falar de vergonha, vulnerabilidade e tristeza. Pois as pessoas em geral não querem ser vinculadas a tais conceitos. Afinal,  ninguém quer ser taxado de solitário ou revelar para os outros que está se sentindo sozinho em determinada situação. Num movimento oposto, faz-se o esforço para maquiar a solidão.

Entendo, sei que assusta, mas não corre não. Negar o sentimento nunca é a melhor alternativa, só alimenta o "problema". Nesta conversa compartilho dados sobre a experiência da solidão na sociedade, falo sobre o seu impacto na saúde, por que nos sentimos sozinhos e a  importância da conexão. Ah, e ainda apresento alguns mitos sobre a solidão e revelo se é possível lidar ou superá-la.

Dados sobre a solidão. Por que precisamos falar sobre ela? 

Ao contrário do que o senso comum pode nos levar a acreditar, os resultados da pesquisa BBC Loneliness Experiment identificou que o sentimento de solidão é mais presente em jovens do que em idosos; 40% dos jovens entre 16 e 24 anos declararam sentirem-se sozinhos  com frequência ou muita frequência, enquanto 27% dos idosos com mais de 75 anos fizeram a mesma declaração.

Apesar dos dados, é importante refletir que talvez a solidão não esteja mais presente entre os jovens. Eles apenas podem estar mais confortáveis em reconhecê-la e em pedir ajuda. Como disse, ninguém quer ser taxado de solitário.

A pesquisa da BBC foi respondida por 55 mil pessoas de vários locais do mundo. Mas antes da sua realização, dados sobre a solidão especificamente na Grã-Bretanha chamou a atenção de autoridades públicas. De acordo com o relatório da comissão Jo Cox sobre a solidão, divulgado em 2017, mais de 9 milhões de pessoas (aproximadamente 14% da população), frequentemente ou sempre se sentem solitárias.

Solidão: questão de saúde pública ou privada?

Diante disso, em 2018, a solidão se tornou uma questão de saúde pública na Grã-Bretanha por meio da criação do Ministério da Solidão. O órgão tem a missão de investigar as origens do sentimento, propor medidas e atividades para a sociedade aprender a lidar com ele.

É natural se sentir sozinho de vez em quando, o problema surge quando o sentimento é persistente. Solidão crônica está associada à redução do tempo de vida e a diversas doenças como complicações cardiovasculares, demência, depressão e ansiedade.

No trabalho ela pode reduzir o desempenho de tarefas, limitar a criatividade, o raciocínio e a tomada de decisões. Pessoas demonstram um melhor desempenho quando se sentem conectadas à missão e às pessoas com quem trabalham. Ou seja, a solidão representa custos humanos e econômicos. Todas as instituições às quais pertencemos podem colaborar para intensificar o sentimento ou lidar com ele.

Questão de saúde pública ou não, a solidão se faz presente entre nós, em diferentes faixas etárias, e tem impactos extremamente negativos para a nossa saúde e vida de modo geral. É preciso sim falar sobre ela.

Por que conexão humana importa? 

De acordo com artigo da Harvard Business Review, What do we know about loneliness and work? A roundup of the latest thinking on the  power of human connection, um indicativo que demonstra a falta de conexão humana é a humanização de "coisas".

Tipo o caso da bola de vólei Wilson, no filme Náufrago, a referência a animais de estimação como seres humanos e o apego a divindades. Pessoas socialmente desconectadas tendem a ter mais fé em deidades e são mais propensas a acreditar em fantasmas.

Isso só reforça o seguinte: toda emoção e sentimento que experienciamos comunica algo. A solidão soa como um alarme para informar que precisamos buscar novos relacionamentos ou cultivar os atuais. Avisa que estamos desconectados. Conexão humana é uma necessidade intrínseca à nossa natureza e é o principal elemento que contribui com a construção de uma vida plena.

O autor do livro  Social: Why Our Brains Are Wired to Connect, o neurocientista Matthew Lieberman, acredita que o anseio de nos conectarmos deveria estar na base da pirâmide de Maslow. Antes de necessidades básicas como comida e água. Sua afirmação se baseia na percepção de que, como seres sociais e mamíferos, para ter nossas necessidades básicas atendidas primeiro precisamos nos conectar a um cuidador; alguém que nos forneça alimento nos primeiros anos de vida.

Mas além de essencial a nossa sobrevivência, relacionamentos próximos são o principal elemento para uma vida mais plena e feliz. Com certeza já escutou um dizer do tipo: a qualidade da sua vida é correspondente à qualidade dos seus relacionamentos.Isso foi comprovado por um dos mais longos estudos sobre a vida adulta  e a felicidade, realizado em Harvard. O estudo identificou que "bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Ponto." (Robert Waldinger).

E como enfatizado pelo neurocientista John Cacioppo e  pela psicóloga Stephanie Cacioppo, no artigo The Social Muscle para a Harvard business Review, "o que nos torna uma espécie formidável é a capacidade de raciocinar, comunicar, trabalhar juntos e aprender uns com os outros. O isolamento e a solidão são contrários a isso. Eles vão de encontro ao que é ser humano. É um clichê, mas é verdade: somos criaturas sociais. Nós temos um músculo social. Quanto mais o exercitarmos, mais saudáveis seremos".

Mitos sobre a solidão  

É fato que o desenvolvimento tecnológico e econômico influencia o aumento do número de pessoas morando sozinhas, trabalhando de forma remota sem a companhia física dos colegas da firma e a distância geográfica entre amigos e familiares.

Mas a realidade é que durante a pesquisa que realizei para produzir esse conteúdo não encontrei nenhum estudo que confirme a hipótese de que a tecnologia e o desenvolvimento econômico sejam a causa de um possível aumento do sentimento de solidão na sociedade, ou que confirme um real aumento do sentimento de solidão com o passar dos anos. Caso conheça algum dado nesse sentido, compartilha comigo.

Agora, uma informação importante que encontrei ao longo da pesquisa é que pessoas solitárias têm as mesmas habilidades sociais que pessoas não solitárias. Para verificar isso, solitários foram submetidas a um teste no qual precisavam identificar as emoções de outras pessoas por meio do reconhecimento de expressões faciais em fotografias.

De modo geral, os participantes se saíram tão bem quanto pessoas não solitárias no reconhecimento de emoções; habilidade essencial durante interações sociais. Pois é essa percepção que nos permite regular as próprias ações diante das atitudes dos outros. Na real, o que pode interferir na socialização dos solitários é a ansiedade. Diante de uma situação social a ansiedade domina e com isso a expressão de suas habilidades sociais são limitadas.

Por último, há também uma crença compartilhada pelo senso comum de que laços fracos não contribuem para nos sentirmos menos solitários (ou desconectados). Contudo eles importam sim.

Pessoas que interagem de forma amigável com estranhos e com seus laços fracos, como colegas de trabalho  o de academia que não conhecem bem, por exemplo, sentem-se menos sozinhas e isoladas, e apresentam um alto nível de felicidade e bem-estar do que pessoas que evitam conversas superficiais.

Conexão real oficial: é possível aprender a cultivar conexões genuínas 

Solitários crônicos ou eventuais, acredito que a essa altura do campeonato já te convenci de que cultivar relacionamentos é importante, certo? E que essa é a melhor alternativa para driblarmos a solidão. A principal questão é como fazê-lo.

Para isso a gente pode treinar nossas habilidades sociais (se for o caso), aprender a lidar com a ansiedade, falar com estranhos rs e descobrir o que efetivamente contribui para a criação de conexões genuínas.

Por exemplo, um dos "antídotos" para a solidão ou para melhorar a conexão humana é a substituição de hábitos negativos por positivos em nossas interações sociais. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio do chamado prosocial behavior, que se baseia na simples ideia de ser legal e interagir com os outros. Por exemplo, praticar atos de gentileza.

Mas em geral não colocamos o prosocial behavior para jogo por receio em abordar um estranho a) porque não queremos quebrar o gelo; b) tememos ser rejeitados ou subestimamos o interesse do outro em querer interagir; c) também pode haver a insegurança de não conseguir terminar uma conversa que deu certo a partir do prosocial behavior. No mínimo contraditório, não? 

O cérebro social funciona como um músculo; é com a prática que aos poucos nos sentiremos mais confortáveis e conectados aos outros. Por isso, respire fundo porque é possível sim lidar com a solidão e aumentar o sentimento de conexão por meio de um esforço consciente baseado em práticas e comportamentos que facilitam essa jornada. 

Falo desse processo de construção de relações interpessoais com mais qualidade no A.MA.BI.LI.DA.DE (até rimou), um workshop para criarmos conexões genuínas conosco e com o outro.

O conteúdo conversou com você? Caso sim, compartilhe suas reflexões comigo.

Beijo :)
Aline