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A origem do sofrimento está no pensamento

Educação Emocional

Boa parte do sofrimento que vivenciamos nas nossas relações está conectado às interpretações que a nossa mente faz, constantemente. Apesar de ser um processo natural, é possível não nos deixarmos levar por essa tagarelice mental que prejudica os nossos relacionamentos. Vem que explico como.

O pensamento não é a origem de todo sofrimento, mas com certeza de boa parte dele.

Isso ocorre porque observamos algo e, de imediato, atribuímos um significado a esse algo: bom ou ruim, certo ou errado, me valoriza ou não me valoriza, respeita ou não me respeita, ama ou não me ama, está me provocando etc.

O significado que concedemos aos fatos é a nossa interpretação dos acontecimentos. E interpretação é terreno fértil para a imaginação. Interpretar o mundo faz parte, o problema surge quando não diferenciamos a interpretação da realidade.

Sempre que interpretamos algo estamos fazendo um julgamento. O juízo de valor tende à encaixar a realidade observada em categorias pré-determinadas, que conversam com as nossas crenças, valores, experiências passadas, medos e anseios entre outros.

Quando interpretamos acontecimentos ocorre o risco de nos apegarmos ao juízo de valor que fizemos e de nos deixarmos ser levados por eles. O deixar-se levar é combustível para a tagarelice mental. Uma conversa interior que todos nós temos, constantemente.

O risco da interpretação: um gatilho para ficar enredado

A interpretação cria as condições ideais para falsas ou conclusões precipitadas dos fatos.

"Afinal, se alguém me fechou no trânsito é porque queria me prejudicar."

"Se meu chefe não me concedeu a atenção que eu necessitava é porque não reconhece o meu valor."

"Meu parceiro/a não me responde imediatamente? Logo é porque encontrou alguém mais interessante do que eu."

"Se meu amigo não me chamou para sair é porque está com raiva."

Quando concedemos atenção à tagarelice mental é porque estamos enredados. Tão absortos em nosso próprio universo interior que negligenciamos a realidade: os fatos e o contexto. Inclusive, distorcemos fatos e contextos.

"As pessoas enredadas em um modo específico de pensar ou de se comportar não estão realmente prestando atenção ao mundo como ele é. Elas são insensíveis ao contexto, seja ele qual for. Mais exatamente, elas estão vendo o mundo como elas mesmo o organizaram, em categorias que podem ou não ter alguma coisa a ver com a situação em questão." Susan David, no livro Agilidade emocional*

Os quatro ganchos mais comuns para ficar enredado

De acordo com Susan David, há quatro ganchos mais comuns que influenciam o nosso modo de pensar e nos fazem ficar apegados a pensamentos improdutivos. São eles:

1. Culpar os pensamentos por suas ações ou pela inércia. Pensamos:

  • “Achei que me envergonharia, de modo que não me socializei na festa."
  • "Achei que ele/a não tinha interesse, de modo que parei de compartilhar informações sobre o projeto."
  • “Achei que ele/a ia começar a falar sobre as nossas finanças, de modo que saí da sala…"
  • "Achei que eu ia parecer tolo, de modo que não disse nada."
  • "Achei que ele/a deveria dar o primeiro passo, de modo que não telefonei.”

Quando nos apegamos a essa conversa mental não criamos espaço entre o estímulo do pensamento e a resposta (uma ação). O pensamento é a resposta. A ação ou a falta dela.

2. Mentalidade de macaco

Mentalidade de macaco é um termo da meditação que faz referência ao processo de pular de pensamento a pensamento. Como um macaco pulando de galho em galho. Um pensamento se torna gancho para o outro e assim por diante. Imersos nesse fluxo, não percebemos que estamos saltando de um pensamento para outro.

Essa mentalidade cria narrativas imaginárias. Ela está no passado relembrando e ruminando fatos, e no futuro planejando o que irá acontecer.

Por exemplo, um casal, ou um colaborador e um chefe têm um desentendimento. Uma pessoa sai da sala e a outra fica no espaço pensando: 1. “Como fulano foi capaz de dizer isso?” (passado). E segue relembrando e problematizando cada aspecto da interação que gerou o conflito. 2. “Assim que fulano voltar ele/a vai ouvir o seguinte…” (futuro).

Entre passado e futuro, desenvolvemos narrativas mentais. Histórias que só acontecem na nossa cabeça. Uma atitude que não cria espaço para pensarmos em soluções criativas para o problema em questão.

3. Ideias velhas e ultrapassadas

O apego a um modo padrão de operar baseado em traumas da infância, experiências negativas ao longo da vida ou do hábito podem nos fazer adotar, de forma automática, interpretações equivocadas e comportamentos prejudiciais.

Uma criança que foi abandonada pelo pai ou pela mãe pode ter dificuldade de manter relacionamentos pessoais e profissionais na vida adulta. Como um mecanismo de proteção, o menor sinal de “desinteresse” do outro pode fazer soar o alarme do abandono e deixar a pessoa insegura.

Logo, com receio de ser abandonado, novamente, a pessoa desiste primeiro da relação antes que o outro o faça. A interpretação do mundo está intimamente conectada a um sofrimento conhecido, a partir do qual ela desenvolveu um mecanismo de proteção que é "acionado" de forma automática diante de contextos semelhantes.

Da mesma forma, uma pessoa pode desenvolver um comportamento padrão e ter dificuldade de operar fora dele. Por exemplo, em um ambiente extremamente machista, a pessoa pode adotar uma postura mais ríspida e agressiva, para "conquistar" o respeito dos seus pares. Apegado a esse padrão de comportamento, ela o replica em relações que demandam mais afeto; o que cria desconexão.

4. Retidão equivocada

Está relacionada ao apego às nossas ideias e certezas, à necessidade de estarmos certos. Para não ficarmos enredados aqui, é fundamental desenvolver a flexibilidade de pensamento. Estar aberto ao novo e a considerar a perspectiva do outro, bem como não nos apegarmos a categorias limitantes e rígidas: do tipo, pessoas nerds não gostam de dançar, meninas são extremamente sensíveis e aquarianos têm coração de gelo rs.

O apego às nossas ideias e pré-conceitos, só restringe a interpretação do mundo ao nosso redor. Criam caixinhas que intoxicam a observação de pessoas e dos acontecimentos.

Como não ficar enredado?

Para evitar ficar preso na teia dos ganchos acima. Ou seja, não limitar a nossa interpretação do mundo e nem ficar envolvido demais na tagarelice mental improdutiva, é preciso trazer à tona o nosso "eu observador."

Quando estamos enredados nos misturamos ao pensamento. É como se o pensamento fosse um carro e a gente estivesse dentro desse carro. Por outro lado, na posição do observador, estamos em um ponto na rua observando os carros (no caso, os pensamentos) passarem.

Como observador percebemos o que é fato e o que é o pensamento interpretando e fazendo juízo de valor. Dessa forma também é mais possível identificar como a interpretação que fazemos conversa com "ideias velhas e ultrapassadas" e com a "retidão equivocada".

Podemos facilitar a manifestação do eu observador ao adotar os seguintes comportamentos:

  1. Evitar julgamentos rápidos baseados na interpretação - observe os acontecimentos e diferencie fatos (o que aconteceu e está servindo de gatilho para a tagarelice mental) do que é julgamento da sua parte. Questione-se: qual avaliação estou fazendo sobre o acontecimento? Isso cria espaço entre o estímulo e a resposta.
  2. Evitar caminhos conhecidos - caso perceba que adota um padrão de interpretação dos fatos e comportamentos negativos, desenvolva estratégias alternativas para evitá-los ao primeiro sinal de que estão se manifestando. É aquela ideia de que caminhos conhecidos não criarão resultados diferentes.
  3. Manter a mente curiosa - antes de apegar-se aos julgamentos que a sua mente faz de forma involuntária, tente descobrir o que está, de fato, acontecendo. Investigue o acontecimento. Se for o caso, expresse de forma honesta a sua interpretação a quem pode ajudar a validar ou invalidá-la.

"A mente é seu próprio lugar e, por si mesma, pode tornar o inferno um céu e o céu um inferno.”John Milton

É fundamental constantemente checarmos quem está no controle da nossa vida: o observador ou o pensamento. Estamos dentro ou fora do carro observando como a nossa mente interpreta e julga os acontecimentos?

Quando cedemos às nossas interpretações do mundo, colocamos o controle nas mãos do pensamento. Como marionetes, as nossas ações são guiadas por pensamentos improdutivos. Vivemos no automático acreditando que estamos agindo de forma racional.

Para abandonar esse ciclo vicioso é preciso manter o estado de observação da mente. A observação é o estado de consciência.

Incorporamos o papel do observador que, de forma literal, observa a mente como uma criança sapeca pulando de pensamento em pensamento.

Observamos e percebemos quanto do nosso sofrimento são apenas travessuras da mente e, em vez de agir com base nelas, apenas deixamos essas narrativas imaginárias partirem.

Beijo!

Aline :)

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